Qr Code do blog

Qr Code do blog
Qr Code do blog

Rss

Contacto

Blog Archive

Followers

Total de visualizações de página

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Carta Aberta Visão/SIC

Carta Aberta do Centro Vegetariano - Visão/SIC

Antes de mais, gostaríamos, em nome do Centro Vegetariano, de felicitar a Visão e a SIC por abordarem um tema como o Vegetarianismo, que certamente interessa a uma vasta fatia da população e tem apresentado um crescimento significativo no nosso país – bem hajam, e esperamos que não seja a última vez.
Em seguimento do que lemos e vimos, como médicos de formação convencional (um Vegetariano, outro omnívoro), gostaríamos de acrescentar:

- A transição entre dois tipos de dietas diferentes deve ser gradual, não feita de um dia para o outro. Com uma transição gradual, eventualmente passando por um período de ovo-lacto-vegetarianismo, o repórter teria certamente adquirido uma outra perspectiva. A transição para o Veganismo, como para qualquer outro tipo de dieta, exige um período de adaptação do organismo e de recolha activa de informação, para uma boa escolha dos alimentos e locais para adquiri-los ou tomar refeições.

- Uma má alimentação é sempre uma má alimentação, independentemente da dieta ser Vegetariana, Omnívora ou outra. Comer em excesso doces ou carne produz sempre maus resultados, independentemente da dieta seguida. Assim, teria sido vantajoso o repórter ter seguido um plano nutricional estabelecido por um profissional da área, pelo menos na fase inicial em que desconhecia o que comer ou onde comer.

- Nao temos dúvidas em afirmar que uma dieta vegetariana racional é saudável e acima de tudo muito mais ética e ecológica que uma dieta omnívora convencional, por muito racional que esta dieta omnívora o seja.

- A vitamina B12 é armazenada no fígado em grandes quantidades, sendo que um súbito défice nutricional ao nível deste nutriente leva a que apenas passados largos meses (ou anos) se verifique uma diminuição significativa deste nutriente nos doseamentos sanguíneos, e não em apenas poucas semanas, tempo de duração da experiência. Tendo em conta, para além disto, que o doseamento de vitamina B12 não é 100% fiável, pode-se inferir que ou o repórter em causa apresentava a priori baixos níveis desta vitamina (por possível regime alimentar inadequado) ou o doseamento de controlo desta não se deverá considerar válido.

- A maior parte dos casos de deficiência de B12 não se deve à baixa ingestão da vitamina, mas sim a deficiências na sua digestão e absorção. Qualquer vegano deve saber que a vitamina B12 é o único nutriente que dificilmente se obtém em quantidade suficiente em alimentos de origem vegetal, pelo que se devem ingerir alimentos enriquecidos com esse nutriente ou um suplemento vitamínico.

- A apresentação dos valores de referência dos parâmetros analisados seria útil ao leitor leigo.

- Parece-nos redutor indicar que se “estimam 30000 vegetarianos” em Portugal, sem tão pouco citar as entidades responsáveis pelo estudo. Na realidade, este número resulta do primeiro estudo sério e credível feito em Portugal, como o repórter foi devidamente informado pelo Centro Vegetariano quando o contactou. O resultado foi obtido num estudo do Centro Vegetariano, realizado em Outubro de 2007 pela empresa Nielsen, líder mundial em estudos de mercado, e consistiu na realização de 2000 entrevistas, a indivíduos entre os 15 e 65 anos residentes em Portugal Continental, que são uma amostra representativa da população Portuguesa.

- As reportagens centram-se nas dificuldades do autor nos supermercados e restaurantes convencionais. É pena que não sejam relatadas com o mesmo ênfase as experiências positivas. Forçar refeições veganas num restaurante convencional, simplesmente eliminando ingredientes, não é certamente a escolha mais perspicaz.

- O "cabaz vegetariano" está longe de ser o cabaz típico de um vegano. Por exemplo, a maioria das marcas bolachas de água e sal no mercado são veganas, não há qualquer justificação lógica para o preço ser diferente em cada cabaz. As fontes proteicas apresentadas também incluíam ingredientes mais caros, como o tofu e seitan, e não soja texturizada ou leguminosas, bem menos dispendiosas do que a carne ou peixe. Ser vegetariano está longe de ser mais caro, basta pensar que a base desta alimentação é fruta, legumes, leguminosas e cereais, alimentos de baixo custo.

- Como todas as transições ou mudanças significativas no estilo de vida ou hábitos alimentares, a transição para o Vegetarianismo requer alguma informação, a qual deve ser obtida a partir de fontes fidedignas e fiáveis. Esta está disponível gratuitamente, designadamente na Internet, salientando-se a nível nacional o CentroVegetariano.org, e a nível internacional sites de referência como o do Physicians Committee for a Responsible Medicine, ou a posição da American Dietetic Association e Dietitians of Canada. Curioso é que, dos contactos que o repórter fez com o Centro Vegetariano, que lhe forneceu uma grande quantidade de informação, contactos e referências, nos parece que terá efectuado um bom trabalho de pesquisa. Infelizmente, esta pesquisa foi totalmente deixada de lado em favor de artigos sensacionalistas e de credibilidade jornalística duvidosa, que em nada dignificam o bom nome que a revista Visão e a SIC têm vindo a consolidar ao longo dos anos.

Assim, e em nome do rigor, da qualidade informativa e do bom jornalismo, que esperamos sejam motes das vossas revista e estação de televisão, sugerimos que colmatem as lacunas, ou pelo menos informem sobre o que por ora apontamos.
Sem mais, subscrevemo-nos com a mais elevada consideração.

Em nome do Centro Vegetariano,

António Paiva, Médico
José Ramos, Médico

Fonte: Centro Vegetariano

0 comentários: