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sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Sócrates vegetariano?


À semelhança do que acontece com Pitágoras, nenhumas certezas se podem ter acerca dos hábitos alimentares de Sócrates. A única certeza é o facto de que se especula muita coisa acerca do seu ambiente e o mais provável é que parte do que a história nos revela sobre a vida dele permaneça inexacta. De quase todos os filósofos gregos que elaboraram teorias inovadoras, Sócrates foi o que mais pôs em causa a ordem vigente, estabelecida pelo poder político. Ora, aquilo que se conhece da vida de Sócrates é muito pouco. O Sócrates histórico é conhecido através de escritos, principalmente, de Platão, mas não só. Também Xenofonte e Aristófanes (escritores gregos da época e seus discípulos) escreveram sobre ele. Mais tarde, Aristóteles, o primeiro "historiador oficial" da filosofia, inscreve-o como o filósofo que revoluciona, pela primeira vez, o conceito de humanidade. Todavia, nunca o conheceu.
Historicamente, o período em que decorre a vida de Sócrates situa-se entre 470 ou 469 a.C (nascimento) e, provavelmente, 399 a.C., ano no qual morreu, com 71 anos de idade. Não deixou quaisquer obras literárias ou escritos, pelo se torna difícil a determinação certa das suas ideias em torno da sociedade grega na altura, envolvendo a política, a religião e a intelectualidade de uma maneira geral.

As suas ideias (as muitas que se conhecem) marcaram a história da filosofia por intermédio dos diálogos platónicos (escritos por Platão, que terá sido o mais fiel discípulo de Sócrates), cujas fronteiras do pensamento entre um e o outro não se conseguem definir rigorosamente. No entanto, em determinadas obras de Platão, especialmente na República, surge uma tendência para obedecer a regimes próprios de alimentação. Não são de todo vegetarianos, mas aconselham uma dieta própria, regrada, que evite as gorduras, e especialmente os doces.
Já nessa época haveria, pois, uma preocupação com o corpo: tanto a nível estético (devido a uma apologia exacerbada de tudo o que é belo) como também a nível da saúde. Os factores ligados ao ambiente sócio-político e ao desporto também são dos principais motivos. Isto porque, nas antigas sociedades gregas, o primado da actividade humana centra-se em duas principais vertentes: por um lado, a guerra, que conduz à necessidade de manter o corpo em forma e, por outro lado, o lazer e a educação, que estabelecem uma série de hábitos que regulam a própria vivência em sociedade, pois a ginástica seria a forma como idealmente os jovens gregos se preparariam e se tornariam aptos para a vida adulta. Os combates, a caça e a pesca eram actividades privilegiadas.
Porém, simultaneamente, o belo acompanha todas estas necessidades; pois o culto do corpo leva igualmente ao culto da alma e, daí, a exigência de um corpo belo, através da ginástica, que se alia às artes da música, da pintura e ao cultivo da escrita e da leitura, que tornariam a alma mais elevada (culta, portanto).

Assim, uma vez que Sócrates vivia neste ambiente e filosofou acerca de ideais como a virtude (aretê, em grego), a justiça, o belo, etc., faz sentido que ele também tenha adoptado determinados costumes gregos que visavam o alcance destes ideais. Embora fosse acusado de corromper a juventude, consta-se que, de facto, os jovens gostavam de o ouvir, deixando de lado, inclusive, certos hábitos que, apesar de toda a sumptuosidade envolvida, os gregos não deixavam de cultivar em excesso. Ora, esses mesmos hábitos conduziam, segundo Sócrates, a uma pobreza da alma, a uma corrupção espiritual, na qual se incluiam os abusos alimentares. Estes abusos cometiam-se nomeadamente com os alimentos mais calóricos, que abundavam, por exemplo, nas alturas das homenagens aos deuses. Por isso, durante estas fases, estes excessos desviavam o caminho dos próprios militares e atletas, entre outros, pois como é documentado na República de Platão, esses excessos seriam causa para mais doenças e um sono excessivo, que, por si só, conduziria a erros constantes e más acções. Estas consequências também tornariam os governantes e todos os indivíduos em geral menos perfeitos.
Logo, nenhuma vida regrada se pode levar sem cumprir um regime alimentar saudável, com especial incidência nos alimentos cozidos e legumes. Mas não se exclui necessariamente o peixe ou a carne, pois Sócrates critica claramente os hábitos dos militares nesta passagem: "Também isso se poderia aprender com Homero - disse eu [Sócrates]. Pois sabes que em campanha, durante os festins dos heróis, não os trata a peixe, apesar de estarem à beira-mar, nas margens do Helesponto [uma nota de rodapé explica que este corresponderia ao actual estreito dos Dardanelos, no mar Morto], nem a carne cozida, mas só a carne assada, que é o mais fácil de preparar para os soldados. Na verdade, em toda a parte é mais fácil fazer, por assim dizer, o serviço com o fogo, do que carregar com as panelas." in: República, Platão, trad. MªHelena da Rocha Pereira, 6ªed., Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1990, p.138.
Por isso, se acredita que Sócrates professava igualmente o vegetarianismo. Não numa vertente tão radical, mas como forma complementar a uma alimentação convencional e sem excessos de condimentos e ausência de temperos, como já vem descrito nos clássicos de Homero.



Citações

Sobre o regime alimentar e dieta:

"É preciso uma dieta mais apurada para os nossos atletas guerreiros, que têm que estar sempre vigilantes, como cães, e porque precisam de ver e ouvir com toda a acuidade, e, apesar de experimentarem nas suas campanhas muitas mudanças de líquidos e de alimentação, solheira e intempéries, não devem ser de saúde vacilante.", Sócrates (Platão), in: República

Sobre a importância do exercício físico na cultura grega:

«A ginástica permanece o elemento, senão preponderante, pelo menos característico da formação do jovem grego, o gosto pelos desportos atléticos e pela sua prática constitui, como na época arcaica, um dos traços dominantes da vida grega.», Henri Marrou

«O desporto não é para os gregos apenas um divertimento; é algo de muito sério, que se relaciona com todo um conjunto de preocupações higiénicas e médicas, estéticas e éticas a um só tempo.», Henri Marrou





Sobre o papel da educação e a ideia de aperfeiçoamento:

«(...) a essência de toda a verdadeira educação ou Paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento», Jaeger

Palavras citadas:

«Quantas coisas de que não tenho necessidade!», Sócrates citado por Jean Brun

Referências:

Platão, República, trad. MªHelena da Rocha Pereira, 6ªed., Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1990

http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/escola/paideia/index.htm
http://www.ivu.org/portuguese/people/history/socrates.html

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