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quarta-feira, 25 de abril de 2007

lha repleta de cobras é um improvável abrigo para aves

Parece fugir um pouco ao tema da Alimentação Viva mas penso interessante o tema para vermos como na natureza se estabelecem relações quase impensáveis...

Numa remota ilha da Florida apinhada de cobras venenosas, um cientista acredita ter descoberto uma estranha trégua entre presas e predadores.

A minúscula ilha Seahorse Key na costa central do Golfo das Caraíbas é famosa entre os investigadores pelo estarrecedor número de víboras boca-de-algodão venenosas.

"A população de bocas-de-algodão em Seahorse Key é grande e muito densa, quero dizer que há muitas cobras", diz Harvey Lillywhite, biólogo da Universidade da Florida, que tem vindo a estudar a ilha.

Cerca de 600 víboras deslizam pela ilha de 67 hectares, estima Lillywhite, em alguns casos uma média de 22 cobras por acre do terreno coberto por palmeiras.

Há muito que os cientistas se têm intrigado acerca da forma como tantas cobras conseguem sobreviver numa ilha sem água doce e com um reduzido número de mamíferos que possam ser suas presas.

O segredo para o sucesso das cobras, acredita Lillywhite, são os outros habitantes de Seahorse Key: dezenas de milhar de aves marinhas que aí nidificam desde a Primavera ao Outono, mas as cobras não as estão a comer. Pelo contrário, vivem quase exclusivamente das enormes quantidades de peixe morto que as aves deixam cair, vomitam e excretam todos os anos.

Em troca desta refeição de peixe, as bocas-de-algodão não só não devoram as aves, acrescenta o investigador, mas também parecem impedir outros potenciais predadores de atacar os ninhos.

O resultado é uma situação em que todos ganham, tanto predador como presa, que Lillywhite nunca observou em nenhuma outra ilha. "Há muitos sistemas insulares com aves e cobras. De todos os casos que conheço, as cobras são os predadores das aves, enquanto em Seahorse Key, é diferente. Aqui as cobras não comem as aves e as aves fornecem alimento às cobras, é um sistema fantástico."

Seahorse Key é o centro do Cedar Key National Wildlife Refuge, uma rede de ilhas protegidas perto da foz do rio Suwannee. A ilha é um dos mais importantes locais de nidificação de aves da Florida central, com centenas de espécies como pelicanos, íbis e muitas outras.

Lillywhite acredita que não é por acidente que as aves preferem esta ilha seca e minada de víboras às outras, mais hospitaleiras, do refúgio. "Há muitos outros locais de nidificação mas as aves não os utilizam", diz ele. "Vêm todas para Seahorse Key. Porque será? Nós achamos que é por causa das cobras."

Para verificar a sua teoria, Lillywhite e os seus colegas começaram a analisar a localização tanto dos ninhos das aves como das cobras e os resultados mostraram que a maioria das bocas-de-algodão permaneciam perto das colónias de ninhos, frequentemente directamente debaixo dos ninhos.

Mesmo sem os mapas, a equipa foi quase sempre capaz de verificar onde as cobras tinham estado, comenta Lillywhite. "As cobras, que normalmente são negras, podem ficar quase brancas porque se enroscam debaixo dos ninhos e os dejectos caem-lhes em cima." Uma cobertura de excrementos pode ser um pequeno preço a pagar, acrescenta ele, porque a investigação até à data revelou que as cobras estão a receber uma dieta regular de peixe meio digerido.

Lillywhite observou directamente as cobras a devorar o peixe e até as cobras-bebé participam no festim de peixe regurgitado. "Estava com um colega da Universidade a passear pela ilha e lá estava um espantoso exemplo de uma pilha de peixe meio digerido", recorda ele, "e em redor já estavam duas cobras-bebé e mais quatro ou cinco estavam a ser atraídas para lá. Parece que os bebés começam a usar este sistema muito cedo."

Para além de observações de campo, a equipa de Lillywhite está a estudar sinais químicos isotópicos nos tecidos das bocas-de-algodão para observar pistas acerca da dieta das cobras. "Ainda não analisamos todos os dados mas, com base nas nossas observações e alguns dados isotópicos, sabemos que as cobras se alimentam essencialmente de peixe."

O que ainda não descobriram, acrescenta ele, é qualquer sinal, do campo ou laboratorial, de que as cobras sejam predadoras das aves, independentemente de quão jovens ou indefesas sejam. "Por vezes as crias caem dos ninhos por numerosas razões mas as cobras não as comem. Isso deve-se, penso eu, ao facto de as cobras estarem completamente satisfeitas com peixe."

Lillywhite salientou que a sua investigação ainda está em curso e que as suas descobertas podem ser reformuladas. Um dos aspectos que ainda é preciso explorar é o grau de mutualismo que resulta desta dinâmica única.

Aqui, sugere Lillywhite, a chave pode estar num dos menores habitantes da ilha, as ratazanas castanhas. As ratazanas são uma espécie invasora e são famosas por atacarem os ninhos das aves.

A equipa descobriu que bocas-de-algodão perto dos locais de nidificação, ainda que presumivelmente cheias de peixe, ainda devoram ratazanas suficientes para as manter afastadas. "O que descobrimos é que onde há elevada densidade de bocas-de-algodão há menos ratazanas e as cobras são mais abundantes onde as aves estão, logo isso deve fazer parte do mutualismo."

Alan Savitzky é biólogo de cobras na Universidade Old Dominion da Virginia e comenta a pesquisa de Lillywhite: "A associação entre bocas-de-algodão e os locais de nidificação de aves é invulgar mas não é única. Ainda assim, a situação de Seahorse Key é muito interessante porque há contenção por parte dos predadores. Há uma espécie de mutualismo, em que ambas as espécies são beneficiadas."

Ele e Lillywhite concordam que as descobertas em Seahorse Key, ainda que preliminares, ajudam a limpar a imagem das bocas-de-algodão como um predador indiscriminado.

"Penso que a real força desta investigação está no facto de revelar a flexibilidade de um animal geralmente considerado um predador estereotipado. Também sugere que provavelmente há uma maior diversidade de interacções entre predador e presa do que normalmente nos apercebemos."

Para Lillywhite, as descobertas salientam o papel crucial das cobras num ecossistema tão importante da Costa do Golfo americana. "As bocas-de-algodão são na realidade um peça importante no sistema e provavelmente são a razão porque as aves continuam a nidificar, e com sucesso, em Seahorse Key", diz ele. "É uma forma invulgar, mas muito fixe, de obter um pouco de publicidade favorável para as rejeitadas cobras."


Este boletim é mantido por simbiotica.org, a Rede Simbiótica de Biologia e Conservação da Natureza

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