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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

A PANDEMIA DO AÇÚCAR


Consumimos mais açúcar e adoçantes do que imaginamos. Os mais variados e insuspeitos produtos, desde bebidas a medicamentos, contêm grandes quantidades de açúcar e adoçantes, muitas vezes de um modo disfarçado e quase sempre sem referência à percentagem que é adicionada. A dependência instala-se desde os primeiros meses de vida, com consequências bem amargas para a saúde. As temidas cáries dentárias e a obesidade são apenas duas faces visíveis do problema.

Comemos demais
Cada português consome, em média, 35 quilos de açúcar por ano, ou seja, cerca de 100 gramas por dia, o que equivale a cerca de 12 pacotinhos de açúcar iguais aos que usamos no café! E nem sequer somos os mais gulosos, comparando com os 72 quilos que cada americano consome por ano, o que contribui para que os Estados Unidos da América sejam os campeões em excesso de peso e obesidade. São dados preocupantes, revelados no relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos) 1, que compara os hábitos alimentares e os indicadores de saúde em trinta países. Os portugueses ocupam actualmente o segundo lugar em matéria de calorias diárias ingeridas, com 3741 calorias, logo a seguir aos americanos, que consomem 3774 calorias por dia. De acordo com os dados facultados pelo Ministério da Saúde e citados nesse relatório, em 1999 metade da população adulta portuguesa apresentava excesso de peso, sendo que 12,8% era obesa. Estes números continuam a aumentar, abrangendo idades cada vez mais precoces.
Estamos a engordar, é um facto indisfarçável. Comemos demasiado, abusamos das gorduras e dos alimentos açucarados, e temos fortes hábitos sedentários, o que não auspicia grande saúde nem boa qualidade de vida. Tendo em conta a actividade que exercemos e o nosso habitual dispêndio diário de energia, não necessitamos de ingerir mais do que 2000 ou 2500 calorias – valores de referência para mulheres e homens, respectivamente. Mas estes valores são largamente ultrapassados, como revela o relatório da OCDE, ao atingirmos as 3741 calorias diárias. Vários estudos indicam que a maioria das pessoas aumenta, em média, 7 a 8 quilos em cada 8 anos, armazenando, por dia, pelo menos 50 calorias adicionais sob a forma de gordura. Calcula-se que uma diminuição de 100 calorias por dia poderá ser suficiente para prevenir o aumento de peso e inverter a tendência galopante para a obesidade. É necessário alterar hábitos alimentares, começando pela inevitável redução do açúcar.
“O açúcar corrente é o alimento que mais contribui para a obesidade e outros desequilíbrios metabólicos”, alerta o Professor Gonçalves Ferreira, do Centro de Estudos de Nutrição, no manual Nutrição Humana2. “Um excesso de 50 calorias por dia (12,5 g de açúcar do comércio, ou cerca de 7 g de manteiga ou margarina) resulta na formação de 2 kg de gordura por ano, o que dá, em 20 anos, 40 kg de peso acima do normal”. Bastam dois pacotinhos de açúcar no café da manhã para ultrapassar a linha da elegância. Mas os efeitos do açúcar não se manifestam apenas no agravamento do problema da obesidade. Associada ao consumo do açúcar e dos adoçantes sintéticos, encontra-se uma longa lista de possíveis complicações para a saúde.

Gulosos ou viciados?
Estamos rodeados de produtos açucarados praticamente desde o nascimento. O hábito de consumir açúcar vai-se enraizando ao longo dos anos… mas até que ponto o açúcar causa dependência? Por que cedemos tão facilmente à “adoçante tentação”? Estaremos, de facto, “viciados” no açúcar?
Durante muito tempo, a hipótese da sacarose desencadear reacções de dependência foi rejeitada mas, nos últimos anos, várias investigações têm concluído que o impulso para comer doces revela semelhanças com algumas das características psicofisiológicas da dependência relativamente à droga. A ingestão de açúcar pode activar um sistema de recompensa no cérebro que nos impele a repetir a dose, tal como sucede com a heroína, a nicotina ou o álcool. Provoca modificações cerebrais ao nível dos neurotransmissores, gerando substâncias opióides e dopamina que são responsáveis pela sensação de prazer e satisfação pessoal – a qual nos induz a repetir o consumo. Quando não ingerimos açúcar, o cérebro começa a sinalizar a falta dessas substâncias e surge a ansiedade do consumo, por vezes com sinais típicos de “ressaca”.
A habituação pode conduzir à dependência, quase sem darmos por isso. Experiências realizadas com ratos, conduzidas pelo neurocientista Bart Hoebel na Universidade de Princeton nos E.U.A., revelaram que em apenas 10 dias os pequenos roedores duplicaram a ingestão da solução açucarada, bebendo-a logo na primeira hora em que estava disponível. Os ratos evidenciaram alterações ao nível dos neurotransmissores cerebrais e manifestaram típicos sinais de privação, como ansiedade, agitação e tremuras de dentes. Estes sintomas mantiveram-se quando o açúcar foi substituído pela sacarina, um adoçante artificial, o que reforça a ideia de que a dependência é suscitada, sobretudo, pelo sabor doce. Estas investigações têm lançado novas pistas para o tratamento de doenças do comportamento alimentar, em especial a bulimia, muito associada à incapacidade de resistir aos doces.
Todos os manuais de pediatria são unânimes: as crianças durante o primeiro ano de vida não devem ingerir açúcar ou sal. No entanto, a maioria dos alimentos destinados a bebés, como papas e boiões de fruta, contêm sacarose. Sendo o açúcar uma substância energética que entra rapidamente na corrente sanguínea, não é de admirar que as crianças manifestem grande agitação e oscilações de humor ou que tenham dificuldade em dormir. “A situação é ainda mais preocupante porque as crianças estão a formar o paladar. Se forem habituadas, desde cedo, ao sabor doce, dificilmente conseguirão adaptar-se a uma dieta com menos açúcares”3.

Ladrão de nutrientes
O açúcar comum, tecnicamente designado por sacarose, é extraído da cana-de-açúcar e da beterraba. Há registos da utilização do açúcar de cana na Europa pelo menos desde o século X, tendo sido introduzido na Península Ibérica, pelos árabes, como fármaco e ingrediente de luxo para a culinária, privilégio de muito poucos durante séculos e séculos. O Brasil, que iniciou a produção do açúcar no século XVI sob a colonização de Portugal, continua a ser o maior produtor mundial. O nosso país produz actualmente 70 mil toneladas de açúcar a partir da beterraba sacarina – a totalidade da quota de produção atribuída a Portugal pela União Europeia. Temos uma unidade de produção de açúcar em Coruche, da qual dependem cerca de 800 produtores de beterraba, para além de duas grandes empresas de refinação que transformam cana-de-açúcar. O mercado do açúcar envolve milhares de pessoas e movimenta somas astronómicas. Em 2005 produziram-se em todo o mundo cerca de 145 milhões de toneladas de açúcar, valor que parece estar abaixo da estimativa de consumo mundial para esta época.
A indústria açucareira tende a rejeitar ou a desvalorizar os resultados das investigações que relacionam o consumo regular do açúcar e dos adoçantes com diversas perturbações de saúde, alegando que carecem de confirmação e não passam de contra-informação ou alarmismo. Será assim? Em muitas situações, o impacto do açúcar só é detectado quando a pessoa reduz drasticamente ou elimina por completo o consumo. Para além de contribuir para o aumento das cáries dentárias, obesidade e doenças cardiovasculares, o açúcar tem vindo a ser relacionado com o surgimento de diabetes, gastrites, úlceras estomacais, perda de memória, estados depressivos, descalcificação e certos tipos de cancro.
Em rigor, defendem alguns autores, a sacarose não deveria ser considerada um alimento mas sim um edulcorante ou aditivo alimentar, já que é constituída por calorias puras e destituída de quaisquer nutrientes. Durante o processo de refinação, o açúcar branco perde todas as vitaminas, sais minerais e proteínas que deveria ter, transformando-se num portador de calorias puras, que é rapidamente absorvido pelo nosso organismo. O açúcar mascavado tem um grau de refinação ligeiramente menor, podendo conter vestígios de alguns minerais. O açúcar invertido, devido à manipulação enzimática a que é sujeito, é mais concentrado e tem um efeito ainda mais rápido do que o açúcar comum.
Ao contrário dos alimentos naturalmente doces, como a fruta, a sacarose entra quase de imediato na corrente sanguínea, elevando o açúcar no sangue (a glicose) a níveis muito altos. Esta rápida subida do açúcar no sangue faz com que o pâncreas seja obrigado a produzir grandes quantidades de insulina – a hormona que possibilita a absorção do açúcar pelas células – levando a um ciclo de altos e baixos, de explosões de energia seguidas de cansaço e da vontade irresistível de ingerir mais açúcar. É um ciclo vicioso que pode conduzir à diabetes, doença que não pára de aumentar. Estima-se que na União Europeia mais de 19 milhões de pessoas sofram da doença.
A maioria das pessoas não relaciona o consumo de doces com problemas ósseos, mas a ingestão de açúcar contribui para desmineralização e descalcificação do organismo. A relação é fácil de compreender. Sendo desprovido das vitaminas, sais minerais e enzimas que facilitariam a sua digestão e assimilação, o açúcar refinado retira esses nutrientes dos outros alimentos ou das próprias reservas do corpo. Por isso é chamado “ladrão” de cálcio e de outros nutrientes, nomeadamente de vitaminas do grupo B, que mobiliza durante a digestão. Provoca também o aumento brusco dos sucos digestivos, o que perturba a absorção normal dos outros alimentos e contribui para a hiperacidez estomacal, com a aparição de possíveis gastrites e úlceras. “Faz diminuir a flora favorável da parte terminal do intestino, com desequilíbrio a favor de bactérias menos úteis, e altera as funções normais da fibra”2, refere o médico Gonçalves Ferreira. Problemas de obstipação podem desaparecer com a redução do consumo de açúcar.

Adoçantes perigosos?
Existem dezenas de adoçantes artificiais, também designados por edulcorantes, que substituem o açúcar nos mais variados produtos, desde os alimentos ditos light, a gomas, rebuçados, refrigerantes e medicamentos. Geralmente são divididos em dois grandes grupos: os polióis, que são sintetizados a partir do açúcar tradicional e que incluem o sorbitol, xilitol, maltitol e lactitol; e os edulcorantes intensos, sendo a sacarina, o aspartame, o acessulfame e os ciclomatos os mais comuns. São produtos de baixo custo de produção, portadores de poucas ou nenhumas calorias e com um forte poder adoçante. Podem adoçar até duas mil e quinhentas vezes mais do que o açúcar comum! Alguns não chegam a ser metabolizados pelo organismo e não fazem disparar os níveis de açúcar no sangue, pelo que são frequentemente recomendados a diabéticos. O seu consumo, porém, deve ser evitado.
A utilização dos adoçantes sintéticos em produtos alimentares, embora esteja sujeita a autorização mediante certas condições, tem gerado grande controvérsia, quer entre a comunidade científica, quer entre as autoridades de controlo alimentar. A sacarina, que foi descoberta em 1879 nos Estados Unidos, começou por ser utilizada durante as duas Grandes Guerras Mundiais, num período de forte restrição e carência de açúcar, mas a sua vulgarização nos anos setenta teve avanços e recuos ao ponto de ser obrigatório os rótulos ostentarem mensagens de alerta do tipo “O uso deste produto pode ser perigoso para a sua saúde – contém sacarina, substância que provoca cancro em animais de laboratório”! A sacarina (referenciada como E 954) ainda hoje é utilizada, embora seja consensual que é nociva para a saúde.
De um modo geral, os adoçantes sintéticos são desaconselhados a grávidas e a crianças. Vários efeitos secundários têm sido associados ao seu consumo regular ou excessivo, como flatulência, náuseas, vómitos, dores abdominais, dores de cabeça, fadiga, dificuldade de concentração… E problemas mais graves, como tumores cerebrais, lúpus e esclerose múltipla, têm sido directamente ligados ao aspartame (E 951), também conhecido como «Canderel». É o adoçante que mais controvérsia e investigações tem suscitado. Recentemente, um estudo conduzido pelo Centro de Investigação do Cancro da Fundação Ramazzini de Bolonha, em Itália, concluiu que o aspartame provoca um aumento significativo da incidência de cancro e leucemia em fêmeas de rato, mesmo quando é ingerido em doses muito próximas das autorizadas para consumo diário. Tais resultados indiciam o aspartame como um agente carcinogénico; mas, para já, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar considera-os “inconclusivos”. Outros estudos semelhantes foram rejeitados pelas autoridades americanas, por falta de “evidências significativas no ser humano”, embora admitam a possibilidade de efeitos neurotóxicos, designadamente danos cerebrais, em pessoas particularmente sensíveis à fenilalanina e ao metanol, dois dos constituintes do adoçante.

Naturalmente doce
O desejo de coisas doces não tem de ser reprimido ou vivenciado como um drama. Basta reorientarmo-nos para alternativas mais saudáveis e nutritivas. Durante milénios, os alimentos foram adoçados com mel, com o doce da fruta e dos cereais. Existem no mercado diversas compotas de fruta e geleias de cereais, sem qualquer adição de açúcar, que servem de base para a confecção de deliciosas sobremesas, gomas e rebuçados. Vale a pena procurar e experimentar!
A “pandemia” do açúcar e dos adoçantes sintéticos é um fenómeno recente, que pode ser invertido com a mudança dos hábitos de consumo. As alternativas naturais são, para alguns, menos doces do que o açúcar e os seus substitutos – mas, certamente, não amargam a saúde.

Gabriela Oliveira
Licenciada em Comunicação Social

Notas:
(1) OCDE Health Data 2005 – Statistics and Indicators for 30 Countries (2005). www.oecd.org
(2) Nutrição Humana, edição Fundação Calouste Gulbenkian (1994).
(3) Revista Teste Saúde nº59 (Fevereiro/Março de 2006).

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